O poder terapêutico das mãos
Filipe Gonçalves é um dos osteopatas mais reconhecidos em Portugal. Em entrevista à Revista Negócios Portugal, o osteopata, engenheiro de formação, mostrou-nos qual a sua visão desta já legalizada terapêutica não convencional.
Para que possamos contextualizar os nossos leitores, pedia-lhe que começássemos por abordar a questão da osteopatia: no que consiste?
A osteopatia é uma ciência que nasceu há 140 anos, das mãos dum médico americano Andrew Taylor Still. A osteopatia aborda o corpo como um todo, procurando a integração e a harmonização de todas as estruturas do corpo. Para isso, o osteopata afere a saúde do paciente no sentido de restituir o equilíbrio do todo. A osteopatia para atingir esse equilíbrio, sinónimo de saúde, usa técnicas manuais.
A grande diferença entre a osteopatia e a medicina convencional passa essencialmente pela atenção focada no doente ao invés da doença, correto?
Pedia-lhe que aprofundássemos um pouco esta questão.
O grande contributo de Andrew T. Still, que criou a osteopatia há 140 anos, foi não olhar para a doença, mas sim para a saúde do paciente, ou na ausência desta.
A uma agressão interna ou externa, o organismo de cada um de nós responde de forma diferente, devido à idade, sexo, raça. A osteopatia não tem tratamentos estereotipados, mas sim direcionados para a realidade e saúde de cada um.
Em que doenças pode atuar a osteopatia?
A palavra doença pode não ser a mais correcta, embora na linguagem osteopática se use. A osteopatia trata disfunções somáticas (alterações da funcionalidade do organismo), e estas é que podem levar à instalação de estados patológicos. Podemos dizer que a ação do osteopata é essencialmente sobre a sistema músculo-esquelético, este representa mais de 60 por cento do corpo. Assim, a abrangência de patologias é vasta, - cefaleias, nevralgias, lombalgias, dores de costas, tendinites, etc.
E a quem se destina?
Todas as faixas etárias podem receber tratamento osteopático, salvo se, após avaliação, houver alguma contraindicação, como no caso de fraturas, por exemplo.
A sua experiência mostra-lhe que os portugueses já recorrem com maior frequência à osteopatia ou são ainda um pouco céticos em relação à sua capacidade terapêutica?
Os portugueses estão mais informados e sensibilizados para a importância da osteopatia. Há mais procura e mais oferta também. No entanto, o que ainda dita a escolha dos portugueses é o passa-a-palava.
Foquemo-nos agora um pouco no 'Filipe Gonçalves, osteopata'. Quando inicia a sua carreira? Porquê a osteopatia?
Conheci a osteopatia pelo lado do paciente, em 2004. Nessa altura, sofria de lombalgias e encontrei aqui a solução. Apesar da minha formação de base ser de engenharia, descobri uma aptidão natural para a terapia manual e comecei a desenvolvê-la com um curso de massagem desportiva. Desde aí, completei dois cursos de osteopatia e uma pós-graduação em Osteopatia Clássica na escola inglesa “The John Wernham College of Classical Osteopathy”, para além de outras formações fora e dentro de Portugal,
Enquanto profissional, como tem sentido a evolução da osteopatia?
A osteopatia tem evoluído muito na última década, em Portugal e alem fronteiras. Os governos estão mais sensibilizados e “obrigados' pelo público a legislar a osteopatia e outras ciências, para garantir a qualidade nas instituições de ensino e nos profissionais.
Quais as técnicas a que mais frequentemente recorre?
Recorro mais a técnicas de tecido mole, onde se incluem técnicas de miofasciais e, quando indicado, técnicas manipulativas. Também desenvolvi uma especialidade (de terapia manual) que trata patologias ligadas à presença de cicatrizes, de origem traumática ou pós-operatória.
Relativamente às entidades competentes, recebe das mesmas o reconhecimento e apoio que considera necessário à prática da osteopatia?
Sim, felizmente recebo, seja por parte dos meus pacientes, seja por parte de alguns profissionais de saúde de outras áreas que dão referências minhas.
O facto de tratar alguns atletas de alta competição é também, de certa forma, um reconhecimento. No Governo, o reconhecimento da osteopatia passou pela publicação da Lei das Terapêuticas Não Convencionais
O que deve mudar?
Por parte das pessoas que procuram melhorar a sua saúde, devem estar abertas a experimentar esta terapia e procurar profissionais qualificados. Do meu lado, tento sempre melhorar e desenvolver ferramentas para os desafios diários, sem perder a humildade para tratar quem me procura.
Artigo publicado no Jornal i, 2013 | Revista Negócios Portugal | Osteopatia